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O Pirralho

06 abr 2015

Artigo arquivado em Hemeroteca
e marcado com as tags Alexandre Marcondes Machado, Arte e cultura, Belle Époque, Campanha Civilista, Cornélio Procópio de Carvalho, Crítica política, Humor político, Juó Bananere, Literatura, Modernismo, Oswald de Andrade, Rodrigues Alves, São Paulo

O Pirralho foi uma revista predominantemente literária e política lançada em São Paulo (SP) em 12 de agosto de 1911, fundada por Oswald de Andrade e Dolor de Brito com o objetivo de questionar e repensar a arte brasileira. Enquadrado na excitação cultural que culminou no Modernismo – que, por sua vez, encontrou seu expoente na Semana de Arte Moderna de 1922 –, a publicação era propriedade formal de José Oswald N. de Andrade, pai de Oswald de Andrade, sendo, no entanto, dirigida pelos fundadores. Renato Lopes ainda assinava como representante no Rio de Janeiro. À época um desconhecido aspirante a escritor, Oswald de Andrade havia começado a publicação com a ajuda financeira de sua família, ocupando inicialmente o expediente, com o nome de Oswald Júnior, no cargo de secretário de redação. Sua revista, além de ícone do chamado Pré-Modernismo, teve grande importância no início de século XX paulistano.

Com sede no nº 50 da Rua XV de Novembro, funcionando numa sala simples de sobrado, O Pirralho era inicialmente publicado semanalmente, aos sábados, em tiragens iniciais de 5 mil exemplares. Seu número de páginas, com o passar do tempo, variou entre cerca de 12 e 20. Nos seus primeiros momentos, contava com o preço de capa de $200, com assinaturas anuais a 10$000 – depois, no entanto, o valor de cada exemplar subiria para $400.

Além de explorar o mundo das letras de sua época, a publicação tinha abordagens políticas e sociais, em uma forte crônica humorística e satírica. Era um periódico típico da Bela Época nacional, dado o seu foco nas diversões da elite, a sua forte coluna social e nas importantes figuras da intelectualidade de então, que marcavam presença em suas páginas – para as edições iniciais, Oswald de Andrade havia conseguido a colaboração de escritores cariocas como Olavo Bilac, José do Patrocínio Filho, Goulart de Andrade, Affonso Celso, Thomas Cunha e Emílio de Menezes, que foi próximo à criação do periódico, influenciando fortemente Oswald de Andrade. Ao longo de sua história, O Pirralho teve ainda outros ilustres colaboradores, caso de Alexandre Marcondes Machado, Guilherme de Almeida, Cornélio Pires, Jayme Gama, Amadeu Amaral, entre outros (ver abaixo). Nas ilustrações, Lemmo Lemmi (de pseudônimo Voltolino, sendo um dos sócios de Andrade no periódico), Di Cavalcanti, Ferrignac e Jorge Colaço também publicaram no semanário, assim como o caricaturista inglês “Mr. Forrest”, que em 1911 mandava desenhos feitos “nas ruas do Rio”. Quanto ao expediente formal da revista, a partir do nº 4, de 2 de setembro de 1911, o mesmo deixou de ser publicado, figurando em seu lugar apenas o slogan “Semanario Illustrado d'importancia... evidente”.

O caráter político de O Pirralho era exposto logo em seu nº 1, no texto “A politica do Pirralho”:
O Pirralho é um crila intelligente e sobretudo moderno. Ainda na escola, já o petiz faz politica com as professoras e o director compenetrado. Mas de politica mesmo, dessa coisa pegajosa com que os nossos homens importantes lambusam as consciencias, é que o pobresinho entende pouco. Tem birra do Hermes (da Fonseca). Acha muita graça no capitão Rodolpho (Nogueira da Rocha Miranda) porque elle tem cara de padre e não é padre, é capitão. Sympathisa com o Almirante João Candido. Antipathisa com o Marques da Rocha.

Essa postura chegou a mover críticas de O Pirralho a outros órgãos de imprensa, como O Estado de S. Paulo, O Paiz e Fanfulla. Na edição nº 2, de 19 de agosto de 1911, outro aviso importante era dado sobre a publicação, mas referente aos seus aspectos editoriais: “Augmentamos quatro paginas no numero de hoje. Em breve tempo O Pirralho chegará a ter 24 paginas e 32, continuando sempre pelo preço de 200 rs.".

Já na capa de sua 4ª edição, de 2 de setembro de 1911, Oswald de Andrade estamparia em O Pirralho sua postura política mais marcante: a defesa da Campanha Civilista de Ruy Barbosa, onde a oligarquia cafeeira se opunha à candidatura presidencial de Hermes da Fonseca. Assim, literalmente inserindo Hermes e o capitão Rodolpho Miranda nas páginas do periódico como personagens de quadrinhos risíveis, naquela edição comentava-se: “O Pirralho é civilista porque tem medo de soldado. Mas elle gosta muito de soldadinho de chumbo, e por isso é que gosta tanto de brincar com o capitão”. À época era ainda publicada a série crítico-humorística “Quando o capitão fôr presidente”, com as confusões e trapalhadas atribuídas ao político. O Partido Republicano Conservador, encabeçado por Pinheiro Machado na sustentação do hermismo, era constantemente atacado.

Em suas páginas, O Pirralho contava com seções dedicadas ao cinema e ao teatro, noticiando e comentando espetáculos em cartaz e abordando a movimentação provocada eles. A coluna especializada em teatro, inicialmente intitulada “De Camarote”, era assinada por “Manéco, o crítico”, mas depois se converteria na seção “Pelos Theatros”, de Cicero Sylvestre, e, já em 1915, em “Palcos e Fitas”, assinada pelo pseudônimo J. Felizardo. Uma das seções referentes à vida social em São Paulo foram “O Pirralho chic” e “Vida Mundana”, de grande destaque, assinada por Jayme da Gama, que explorava as novidades da semana nos pontos “chics” da cidade. Algum colunismo social, gênero bem explorado na revista, chegou a invadir páginas dedicadas a espetáculos e entretenimento, como a seção “O Pirralho nos cinemas”. Ali, na edição nº 17, de 2 de dezembro de 1911, as “mademoiselles” da nata paulistana eram comentadas com pouca discrição: “C.C.O. excessivamente corada; P.R.A. tristonha; R.S. Travessa; (…) Z.N. olhares scismadores e brejeiros; G.N. volúvel; (…) A.F. embevecida pelo sonho de Nenê, deixava transparecer nos seus olhos negros a dôr e o sentimento”.

Fora as colunas fixas de humor, poemas, trechos de obras literárias e artigos de crítica literária se espalhavam ao longo de cada edição – inicialmente, um espaço para as críticas era a coluna “Pasquinadas menores”. Algumas amenidades não ficavam de fora, como concursos de beleza para mulheres e de talentos para homens (ver nº 13, de 4 de novembro de 1911), em paralelo a uma página de esportes, que comentava a atuação e o cotidiano de clubes e times de futebol e remo. Moderna, e pretensamente um espaço de renovação intelectual, a revista utilizava os mais avançados recursos gráficos de sua época, com boas páginas de quadrinhos, charges, ilustrações e fotografias.

O próprio título de O Pirralho já expunha suas tendências irreverentes, travessas e joviais, capazes de troças com o velho e ultrapassado. Sua linha editorial, em consequência, não estava presa a formalismos. Explicitando o despojamento com que o periódico foi editado, algo que, em parte, rendeu o seu sucesso entre o público galante, Oswald de Andrade contava, no livro Um homem sem profissão: sob as ordens de mamãe, que “em torno do Pirralho juntou-se uma súcia de poetas, escritores e jornalistas improvisados, entre os quais apareceram Paulo Setúbal e um mulato, Benedito de Andrade, que se dava ao luxo de usar o apelido de Baby, pronunciado em português: Babi. (…) Era um analfabeto absoluto, mas senhor também duma suficiência absoluta. Apareceu logo ele com originais de uma crônica esportiva que, corrigidos por mim, publiquei na revista. Passou a ser nosso cronista esportivo”. Assim, a coluna “O Pirralho Sportsman” era assinada pelo pseudônimo Full-Back, no espaço do futebol, e Canotier, no espaço de regatas – depois, esses pseudônimos mudariam para Totó, Homero, entre outros.

Além de seu sucesso editorial, ao longo de sua história, O Pirralho soube usar e valorizar seu espaço publicitário. Com o seu papel determinante para a modernização de costumes e seu público ávido por novidades, a revista aproveitava para anunciar e vender produtos variados, garantindo sua saúde financeira e mantendo uma vida relativamente longa, ao contrário da maioria das revistas da época.

Apesar da direção de Oswald de Andrade, O Pirralho não foi uma publicação puramente modernista, como seria a revista Klaxon. Suas páginas traziam algumas colunas de colaborações francesas (ver “Monographie litteraire à propos du dit”, no nº 6, de 16 de setembro de 1911) e prosa simbolista, gênero de larga aceitação na época, como as românticas “Cartas” fictícias a “Myriam” (publicadas por volta de 1915 pelo pseudônimo Azambuja). No entanto, o semanário criticava os maneirismos dos artistas brasileiros do início do século XX e foi uma das primeiras publicações nacionais a fazer referência ao poeta futurista Marinetti, que agitava o cenário cultural europeu. Ademais, a revista se encaixava na proposta modernista a partir do momento em que, mesmo continuando com certas tradições da imprensa de crítica de costumes nacional, retratava um Brasil que já não era mais exclusivamente luso-brasileiro, mas também dos imigrantes e do acelerado processo de industrialização. Nesse sentido deu-se um dos conteúdos de maior sucesso de O Pirralho, que flertava com a estética modernista: suas muitas sátiras de textos consagrados da literatura nacional, onde eram empregados discursos com falas consideradas incultas, oralizadas, gramaticalmente erradas e carregadas de sotaque, como as de caipiras ou de imigrantes. Assim, Cornélio Pires, por exemplo, com o pseudônimo Fidêncio Costa, assinava as seção “Cartas de Xiririca”, de correspondências caipiras (mais tarde o personagem Fidêncio seria substituído por Pompeo do Amará).

As crônicas satíricas e as paródias a destaques literários nacionais não ficavam somente a cargo de Pires. Na revista, por sete edições a partir do nº 2, de agosto a novembro de 1911, Oswald de Andrade (sob o pseudônimo Annibale Scipione) assinou as “Cartas d'Abax'o Pigues”, coluna de linguajar propositalmente atrapalhado entre o português e o italiano, à moda dos imigrantes carcamanos (“Abaix'o Pigues” era o correlato fônico de “Abaix'o Piques”, forma popular pelo qual o bairro do Bexiga e suas redondezas eram conhecidos). Logo em sua coluna de estreia, parodiando as correspondências de leitores em revistas de moda, Scipione parabenizava o lançamento de O Pirralho e dava a sua opinião política: “io gustei muto do Piralho ma che nome! Tenho sempre che ri chi né o bobo! Minteressó também o artigo da candidatura de fazê o Carlo Guimaráes presidente do Stado.  (…) O Carlo Guimaráes, aquelle si é um bó pra fazê o prisidente, nó o Rudorfo da Miranda né o capitó. O Rudorfo fumo compagni di scuola comigo no grupo du Bó Ritiro. Aquelle é um bóbo piore de eu. Intó també eu quero fazê o prisidente da Republica”. O fim do personagem Scipione ali, no final de 1911, se justificou pela viagem à Europa empreendida por Andrade – durante o período de ausência do editor, O Pirralho foi arrendado por Benedito de Andrade, o Baby, que era o detentor provisório dos direitos da propriedade na ausência do diretor. Nessa época, o substituto de Andrade na coluna de sátiras “macarrônicas”, Alexandre Marcondes Machado, se tornou célebre colaborador, com o pseudônimo de Juó Bananere, basicamente repetindo a fórmula irreverente das “Cartas d'Abax'o”, aperfeiçoando-a, entrando de vez na proposta.

O novo personagem ítalo-brasileiro do periódico, publicado a partir do nº 10, de 14 de outubro de 1914, causou verdadeiro furor entre os leitores de O Pirralho, se revelando um sucesso absoluto. Sua estreia se deu em uma “carta-resposta” a um artigo de Annibale Scipione na mesma edição, comentando a guerra turco-italiana do período. Bananére, que se dizia “Gandidato á Gademia Baolista de Letras”, foi criado em conjunto por Alexandre Machado e o caricaturista Lemmo Lemmi, o Voltolino, que não só desenhava o personagem: toda a sua página contava com o seu projeto gráfico. Lemmi brilhava como ilustrador após passagem pelos periódicos cariocas O Malho e D. Quixote, trazendo a O Pirralho forte espírito satírico com seus personagens firmados no tipo ítalo-brasileiro (além disso, tinha sido ele o criador do moleque de rua que aparecia no título da revista, como mascote). Se o desenhista deu vida em traço a Juó Bananére, com seus longos bigodes apontados para cima, Alexandre Machado lhe deu “voz” e estilo literário, biografia, perfil psicológico e até mesmo uma família – a esposa Juóquina, a filha Gurmeligna e o neto Semanigno. Em pouco tempo, Juó Bananere fez estrondoso sucesso, tanto entre o público letrado quanto iletrado. A façanha levou O Pirralho a circular entre a elite, seu público original, e as camadas sociais mais humildes. Como se não bastasse o português “italianado” das “Cartas d'Abax'o”, Machado também assinou, por um tempo, a página “O Biralha – Xornal Allemong”, nos mesmos moldes do dialeto ítalo-paulistano da seção anterior, mas com articulações orais e vocábulos de imigrantes alemães. “O Biralha” tinha sido criada por Oswald de Andrade já na 5ª edição da revista, em 9 de setembro de 1911 – o “rettadorr-xêfe” do “Horgan brobagandes allemangs no Prasil”, que em verdade satirizava o Kaiser Guilherme II, era “Franz Kennipperlein”.

Oswald de Andrade retornou à direção do periódico ainda em 1911, conforme anúncio na capa do nº 20, de 23 de dezembro daquele ano – “Paulo Setúbal, que com tanto brilho de talento dirigiu a revista ultimamente, continua como seu redactor-secretário”. Mesmo assim, o personagem Annibale Scipione não voltou à sua coluna de origem, continuando esta com Alexandre Machado, em sólida posição.

O sucesso de Bananére está relacionado ao seu atrevimento e à sua irreverência. Além de abordar assuntos literários, o personagem de Machado tratou de política, vida mundana, agito cultural paulistano e temas sociais, históricos, científicos, etc. Os textos de sua coluna, sempre bem compostos com o arranjo gráfico de Voltolino, assumiram diversos gêneros, sempre na mesma linguagem: cartas, crônicas, poemas-piada, textos teatrais, prosas literárias, enquetes, jingles publicitários, paródias de canções, etc. Figuras importantes do cenário literário e político foram consideravelmente satirizadas, como, por exemplo, Casimiro de Abreu, Gonçalves Dias, Raimundo Correa e Olavo Bilac. Sobre este último dizia: "Non é só Bilacco che é uleomo de lettera - io també, io també scrivo verso, io també scrivo livro di poisies chi o Xiquigno vai inditá, i chi undio va vê si non é migliore dus livro du Bilacco". Washington Luiz e Hermes da Fonseca, citado em seus textos como “Hermese”, “Mareschialo” ou “Dudu”, também não foram poupados. O mesmo valeu para Rui Barbosa, tratado simplesmente por “Ri Barbosa”. O crescimento de Bananére foi tanto que, no nº 80 de O Pirralho, de 1º de março de 1913, a sua coluna passou a ser editada como se fosse um suplemento, chamando-se “O Rigalegio – Organo Indipendento do Abax'o Pigues i do Bó Retiro”. Com o subtítulo “Dromedario Ilustrato: anarchia, sucialismo, literatura, vervia, futurismo, cavaço”, “O Rigalegio” era uma “Prorpietá da sucuetá anonima Juó Bananere & Cumpania”. Ali, a linguagem típica do personagem era impressa até mesmo nos anúncios publicitários – “Gilea di mocotó. O dolce da moda. Chi non come gilea, non é xique”. Somente no final de 1914 Bananére voltaria às “Cartas d'Abaix'o Pigues”, tendo “O Rigalegio” durado cerca de dois anos.

Não só a Machado se deveu o sucesso de O Pirralho, em seu auge. Após seu retorno da Europa, Oswald de Andrade assinava a importante seção “Lanterna Mágica”, onde, revelando seu nervo combativo, tratava de arte, movimentos artísticos e opções estéticas, apresentações no exterior, história da arte e variedades. Ali, na edição nº 168, de 2 de janeiro de 1915, foi publicado o texto antológico “Em prol de uma pintura nacional”. Curiosamente, outro assunto explorado, em notas, foram as invenções do brasileiro Santos Dumont na Europa.

Em 1915, as páginas mundanas e o colunismo social ficavam a cargo de Ruy Blas, na seção “'Pirralho' social”, e, logo no início de cada edição, a seção de crônicas “Coisas da Rua” era assinada pelo pseudônimo Marcus Priscus e a coluna “Nota política”, assinada apenas por D., dava conta das atualidades da política paulista e nacional. Na já citada edição de 2 de janeiro de 1915, foi ainda lançado o suplemento “O Pirralho... no Rio”, com textos de Fausto Brazil ou Eloy Pontes – esta página explorou, por um bom tempo, o “estado actual das letras no Rio de Janeiro”. Paralelamente, uma enquete foi longamente explorada pelo periódico nessa época – na edição nº 176, de 27 de fevereiro de 1915 explicava-se a iniciativa, depois de sua publicação: “O Pirralho abriu um inquerito meio litterario e meio mundano para saber o que se pensava em São Paulo da questão da vida superior e elegante e que por marco de referencia tomou a figura de Fradique Mendes”.

Em verdade, 1915 foi um ano em que O Pirralho pareceu perder um pouco de seu rumo inicial, deixando um pouco de lado seu lado irreverente. Assim, no nº 189, de 29 de maio, anunciava-se que em julho o preço de capa da revista baixaria para $300 –  “Além de grande número de caricaturas allusivas à guerra e ao momento politico, O Pirralho restabelecerá antigas secções, das quaes O Rigalegio, folha independente de Juó Bananére. Outras secções de humorismo e combate serão desenvolvidas, tratando O Pirralho de se tornar o velho jornal de troça e caricatura que fez a campanha politica de 1911”. Apesar do anunciado, a volta de “O Rigalegio” acabou não se consumando. Pouco depois, no nº 201, de 4 de setembro, a edição especial de quatro anos de publicação, que comemorava trazendo mais poemas e textos em prosa que de costume, anunciava: “O Pirralho deste mez em deante sahirá quinzenalmente. (…) Com mais tempo e mais assumptos, O Pirralho será uma revista approximadamente perfeita. (…) A secção de caricatura no texto a cargo de Voltolino será amplamente desenvolvida. (…) O Pirralho dará supplementos jocosos em casos opportunos”. Em paralelo, fora da revista, no mês de maio de 1915 Alexandre Machado vai além da política e das letras nacionais e publica “La divina increnca”, paródia de “A Divina comédia”, de Dante Alighieri (até o ano de 1925, a obra teria nove edições).

Por fim, em 1915, a direção de Oswald de Andrade entrou em choque com Alexandre Machado. À época, Andrade e Olavo Bilac se articulavam em torno da Campanha Civilista. Assim, na edição nº 205 de O Pirralho, do início de novembro, uma contradição ficou clara no semanário: na capa uma ilustração de Voltolino mostrava Bilac com uma armadura à lá Dom Quixote, sob os dizeres “O chefe da Cruzada”; internamente, Dolor de Brito elogiava o apelo do poeta à Campanha Civilista, e, em “As Cartas D'Abaxo O Piques”, Bananére ironizava a visita de Bilac a São Paulo e seu discurso na Academia de Direito do Largo do São Francisco.

Assim, conforme se anunciava no nº 206 de O Pirralho, de 13 de novembro de 1915, Oswald de Andrade abandonava a direção do periódico: “Deixa a imprensa militante para se entregar aos seus interesses financeiros”. Desta forma, “Assumiu a direcção d'O Pirralho Cornélio Procopio de Carvalho, que ha um anno para cá vem trazendo a esta revista o carinho de uma preciosa collaboração de serviços. (…) O Pirralho manterá o seu caracter ligeiro e vivo, continuando a fazer politica e litteratura e contando com todos os seus antigos elementos”. O principal desses antigos elementos, no entanto, acabou sendo retirado da publicação logo na edição seguinte à que anuncia a saída de Oswald de Andrade. No nº 207, de 27 de novembro era publicada a seguinte nota: "Deixou de fazer parte desta revista o talentoso moço Alexandre Marcondes Machado, que sob o interessante pseudônimo de Juó de Bananére vinha ha muitos annos com as suas magníficas 'Cartas d’Abax'o Piques' desopilando o fígado dos nossos leitores. Ao optimo companheiro os nossos agradecimentos com os melhores votos de felicidade". Estima-se que o fim de Alexandre Machado na revista deveu-se justamente às suas ironias com Olavo Bilac. Naquele mesmo ano, junto com outros colaboradores de O Pirralho, Machado lançou o tabloide O Queixoso, de crítica a políticos da época. No ano seguinte, lançaria ainda A Vespa. Mas nenhum dos dois jornais durou muito tempo.

A demissão de Machado de O Pirralho expôs mais uma vez o nervo combativo de Oswald de Andrade no periódico, apesar de não mais dirigi-lo. Segundo Cristina Fonseca, no livro "Juó Bananére: o abuso em blague", a revista não só foi determinante para o rompimento de uma mentalidade artística antiga (romântica, parnasiana) para o ingresso no novo (o Modernismo), mas também um “marco na transição da velha para a nova ordem política e social do país: a passagem da República da Espada, representada pela figura do general Hermes da Fonseca, para a República Civil, dos 'senhores do café', representada por Rui Barbosa, Rodrigues Alves e todos os cartolas do período”. Já na edição nº 168, de 2 de janeiro de 1915, notava-se que O Pirralho era particularmente elogioso a Rodrigues Alves: “Não é preciso historiar a vida do sábio politico, do estadista emerito e do administrador sem jaça, pois os muitos e relevantes serviços prestados pelo Conselheiro Rodrigues Alves ao nosso Estado e ao Brasil inteiro, permanecem evidentes e palpáveis”. Em seu livro supracitado, o próprio Oswald de Andrade revelava:
A vida de O Pirralho tornou-se intensa e importante no cenário político, em que se lutava pelo civilismo de Rui contra a ditadura de Pinheiro Machado. (…) numa excursão à cidade de Socorro conheci um dos maiores líderes políticos de São Paulo. Chamava-se Washington Luís Pereira de Sousa, era Secretário da Justiça e Segurança, e fazia-se temido por sua conhecida energia. Suas palavras sobre minha revista foram de tal modo elogiosas e favoráveis que, sem embaraço, aceitei o convite que me fez de vê-lo em sua Secretaria. Aí, espontaneamente ele se dispôs a auxiliar financeiramente O Pirralho, que considerava um valor na luta que se desenvolvia em torno de Rui Barbosa contra o hermismo controlado por Pinheiro Machado.

Mesmo após o fim de Juó Bananére, em 1916 as “Cartas d'Abax'o Pigues” continuaram sendo publicadas em O Pirralho, assinadas por Juó Laranjére, pseudônimo de Geswaldo Castiglione. No entanto, a coluna nunca mais atingiu o mesmo sucesso que na época de Alexandre Machado, sendo extinta tempos depois. De fato, toda a revista, durante a direção de Cornélio Procópio, passou a ser menos irreverente e mais política e literária, como já vinha acontecendo.

Em sua nova fase, e funcionando em outro endereço, o nº 28 da Rua São Bento, O Pirralho pareceu não desfrutar do sucesso editorial de outrora. No entanto, em 1917, Oswald de Andrade publicou ainda na revista trechos de as “Memórias sentimentais de João Mirador”, de grande destaque, que, depois, se transformaria no romance modernista lançado em 1924.

Chegando no início de 1918, o periódico parecia uma cópia de si mesmo, em baixa qualidade. Nesta época, mesmo o desenhista Voltolino abandonara a revista, deixando o cargo de ilustrador principal a A. Corrêa, que não tinha o mesmo brilho. Custando novamente $200, circulava comentando assuntos gerais de São Paulo, política, carnaval, jogatina e variedades. A coluna mundana se chamava então “Thesoura Mundana”; ao passo que comédias teatrais transcritas se encaixavam na seção “Theatro ao ar livre”. O ar combativo e panfletário, no entanto, continuava dando as caras n'O Pirralho: logo na capa do nº 247, de 31 de janeiro de 1918, o periódico exaltava Eloy Chaves como “Futuro presidente do Estado de S. Paulo”. A edição seguinte, de 23 de fevereiro de 1918, voltava a destacar Rodrigues Alves, em sua campanha para a presidência da República.

Já chegando no fim de sua circulação, O Pirralho ainda tentava explorar a antiga fórmula humorística de textos em linguajar caipira – era o caso da coluna “O seu Majó na cidade”, com o personagem Juca Saturnino da Serra Cizú. No entanto, na época, a publicação tinha também um lado enfadonho, pouco atraente, evidenciado no nº 248, de 23 de fevereiro de 1918, na publicação de uma “Mensagem dirigida ao Congresso Legislativo pelo Dr. Affonso Alves de Camargo, Presidente do Estado (do Paraná), ao installar-se a primeira sessão da 14ª legislatura em 1 de fevereiro de 1918”. Bem destacado, este texto tomava boa parte da edição.

Estima-se que o nº 248, de 23 de fevereiro de 1918, tenha sido o último de O Pirralho. No entanto, de acordo com Nelson Werneck Sodré, em A história da imprensa no Brasil, o periódico teria circulado somente até 1917. Sabe-se, por fontes diversas, que foi em 1918 que Oswald de Andrade encerrou a trajetória de O Pirralho, passando a se dedicar a outras publicações (apesar da saída da direção da revista em 1915, nota-se que sua influência determinou o rumo da mesma). Adicionalmente, sabe-se que já na década de 1920, em São Paulo, chegou a circular um periódico com o mesmo nome de O Pirralho – mas não se sabe se esta seria uma revista homônima ou uma continuação da mesma.

Um pouco menos destacados que os já citados, O Pirralho publicou ainda nomes como Vicente de Carvalho, J. Dorval, Alcides Maya, Octavio Augusto, Leal de Souza, Alvaro Moreyra, Sylvestre Rodrigues, Affonso Celso, Antônio Cabral, Leonan, Manuel Carlos, Theo Dias de Andrada, Paulo Setúbal, Laerte Setúbal, Ruy Braz, João Plácido, J. L. Monteiro da Silva, Victor Hugo (em dezembro de 1911 duas cartas em francês do autor saíram na revista), Jacintho Góes, Nuto Sant'Anna, Olegarino Mariano, Raphaelina de Barros, Jacomino Define, Albertina Bertha, Gustavo Teixeira, Ricardo Gonçalves, José Severiano de Rezende, Viriato Corrêa, Humberto de Campos, Monteiro Lobato, Ambrósio Espinheiro, Oscar Lopes, José Wasth Rodrigues, Múcio Teixeira, Athalia Bianchi Bertoldi, Agneto Mendes, Fausto Guedes Teixeira, Theodomiro Guedes, Mário de Alencar, entre outros . Alguns desses nomes podem ser pseudônimos, como eram, de forma mais clara, Miss Jenny, Joachin da Terra, Mr. de la Palisse, Chico Patrulha (da coluna “No trinque”), D'Anilo, Zéca, João Felpudo, Xisto, Vedeta e ainda Cândido João, possível  referência a João Cândido, admirado pelo periódico.

Cabe ainda destacar que após abandonar a atividade em 1917, em maio de 1933 Alexandre Machado voltou ao jornalismo satírico lançando o semanário Diário do Abaix'o Piques. Este jornal, no entanto, durou apenas três meses, em decorrência de seu falecimento.

Fontes

- Acervo: edições de nº 1, de 12 de agosto de 1911, ao nº 21, de 30 de dezembro de 1911; de nº 168, de 2 de fevereiro de 1915, a nº 209, de 25 de dezembro de 1915; e edições nº 247, de 31 de janeiro de 1918, e nº 248, de 23 de fevereiro de 1918.

- “A Semana de Arte Moderna”. Em http://www.mundocultural.com.br/index.asp?url=http://www.mundocultural.c...

- Catálogo de Periódicos da UNESP: http://www.assis.unesp.br/cedap/cat_periodicos/popup/o_pirralho.html

- Enciclopédia Itaú Cultural Literatura Brasileira. Em http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_lit/index.cfm?...

- FONSECA, Cristina. Juó Bananére: o abuso em blague. São Paulo: Ed. 34, 2001.

- FREIRE, Fábio Lima. Os Anos Loucos e as Revistas Paulistas: O Pirralho e Klaxon. Resumo disponível em http://www6.ufrgs.br/infotec/teses%2005-06/resumo_4105.html

- FRIEDMAN, Abílio. Juó Bananére. Em http://www.mundocultural.com.br/index.asp?url=http://www.mundocultural.c...

- MARTINS, Ana Luiza. Revistas em revista: imprensa e práticas culturais em tempos de República, São Paulo(1890-1922). São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo: Fapesp, 2008.